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Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2018

Últimas de Confúcio

Se precisar de esbofetear o seu patrão Namore a sua filha mais formosa  Se precisar de esganar a sua vizinha Ofereça-lhe uma píton Se precisar de um pouco de dinheiro Vá trabalhar, não é? Se precisar de muito dinheiro  Só mesmo se roubar Se precisar de atingir a iluminação Tenha boa pontaria (afaste-se dos vidros) Se precisar de um pouco de compaixão  Embebede-se com estranhos Se afinal não precisar de nada Peça tudo, tudo, tudo

Tom Waits

Obrigado por me curares o cansaço  Sem me privares de sentir o caminho Obrigado pelo Bourbon que nunca partilhamos Que me embriaga docemente sob a tua voz Obrigado pela distância a que me fazes ouvir Os camiões em viagem, as velhas emissões de rádio Obrigado pelo castanheiro velho e retorcido Onde, de repente, pousaram dois corvos Obrigado pelo cachimbo do velho pescador E pelo sorriso borratado da puta de Mineápolis Obrigado pelas pétalas desfeitas da última rosa  E pela bicicleta estragada que me atrasou um amor Obrigado pelo sangue de um príncipe moribundo Pela saudade de levar a casa ao fim da noite Obrigado pela feira cruel do cavaleiro negro E pelos peidos nauseabundos do seu cão Obrigado pelo uivo do lobo mais velho E pelo telefonema tantos anos depois Obrigado pelo tic-tac do relógio do orfanato Pelo grande cemitério de cadillacs Obrigado, Tom Waits
Sobre a lã púrpura e esbranquiçada das nuvens O amarelo em modo maior a anunciar a aurora Estou a ser lançado por uma fisga para um caminho lento O tumulto do meu estômago desce às pernas inertes E a cabeça a gozar a sorte de ainda estar vivo, pulsante  Estremecendo com prazer através desta loucura veloz O medo a alimentar uma imaginação masoquista Que constrói um sorriso na varanda do meu rosto Enquanto sonho outro sorriso resplandecente sob o céu Preso a uma âncora pesada no meu submundo  Penteando a língua com uma navalha mal afiada Para sentir o amargor do metal da salvação De onde se criam bolbos de flores estonteantes Celebrando a vida na dança frenética do sangue Jorrando como um rio que desagua na morte À sombra de um lugar a que chamei casa Onde a calma apodrece debaixo dos candeeiros  E os órgãos vivos apodrecem com a calma Gastando-se na voragem destes dias No teatro mudo de perdurar e sustentar O palhaço que se compadec...

Queimaduras

O fogo que alimenta o ânimo das coisas vivas Queima-me as mãos e os olhos O poema incendeia-se por dentro Mastigo o carvão do seu eclipse Na amplitude do canto das queimaduras Anseio pelo teu regresso

quatro quadros

Por vezes, reduzimos tudo a ápices Se valerem a pena, ficam eles Os ápices que valem Do resto, nunca lembro muito bem

I Hope That I (...)

Mãos encostadas às mãos Entre dedos, o tamanho de um vaga-lume Sobretudo a elegância proporcional A combinar sob as varandas dos sorrisos Como se a lareira da imaginação Fervilhasse secretamente de agrado E amiúde, os olhos, deixassem escapar alguma coisa Um suspiro de luz que arrepiou o mundo E em cima o peso menos inerte das cadeiras E como nos podemos culpar? Todos os dias chove em algum lado Todos os dias alguém canta Todos os dias o lobo caça Quem poderemos culpar? O mundo real está dentro das nossas cabeças E está fora das nossas cabeças Dentro da minha cabeça As contas dolorosas do possível, do impossível Fora da tua Um adeus apressado atrás de um portão

Contemporâneos eruditos e outros tipos de filhos da puta

De repente, marcam serões de vaidade e paciência para os duelos das palavras. Já não há frio de cortar. Por aqui, já não há muita fome que dispa os ossos. As maleitas portam-se bem. Pagam a renda - antes do dia oito e tudo - e vão convivendo connosco num inevitável parasitismo. Duram connosco. Nunca percebi quem é que fica a perder. De repente, já não há passeios nem festins nem danças nem guerras na avenida. Quem quer disso que ligue a televisão. As festas e as guerras estragam a elegância. E o sexo faz-se atrás dos arbustos ou dos biombos ou não se faz. Se nos despentearmos, estamos escondidos. Confundimos festas e guerras, nos sofás. Nos bares, nas galerias, nos restaurantes e nas livrarias. Sempre muito bem penteados. O sofá é a placa de petri dos contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta. Sentados nos solventes sofás, poderiam lá perdurar. A palavra percorreria toda a cabeça, rodeando as órbitas, até que os músculos, os ossos e as vísceras se entranhassem no ...

A tarde e estas paredes amarelas

A carregar estas paredes amarelas ( na verdade, são brancas Nesta apneia do vagar silencioso onde encolho os ossos Velando a saudade do riso com o carvão que escondo na boca Como se o tempo existisse para me cortar a pele E pelos golpes se escutasse o sussurrar dos mortos Perguntando pelo lugar onde se esqueceram de estar A carregar estas paredes amarelas ( na verdade, parecem brancas Lembro que nunca ouvi perguntar a idade de uma maçã Que se comem maçãs pelo brilho, côr e doçura A honestidade realiza-se na erótica essencial das coisas A luz ensina a ver e o tempo a ver melhor A doçura do sangue aprende-se um pouco depois A carregar estas paredes amarelas ( na verdade, não são amarelas Como a febre dourada da tarde que se perde comigo Há a distância fundamental de um tiro ou de um precipício Invento jardins para me esconder e brincar Alimentando a gordura do meu silêncio Até que, sem lamber as feridas, falarei (e talvez ninguém vá ouvir)

Um segredo

Por agora, guardamos este segredo. Tinha que o dizer a alguém. É bom ter uma amiga assim. Da tua boca só costuma sair pêlo.

Ossos do ofício do lenhador

Um lenhador aproveitava a vantagem produtiva de uma motosserra, cooperando alegremente com os optimismos do progresso, procrastinando nas ecologias. Corte, serrim, farpa e lenha, rodopiavam com a mesma alegria no esquartejamento metódico das árvores. Assobiava uma modinha previsível e de ritmo fácil, emprestando um sentido eufemista à devastação. A cortar um ramo mais baixo, com algum desleixo atrevido, levou a lâmina para a coxa e desenhou uma insólita amputação. A secção clara do fémur, redondinha, contrastava com o manancial encarnado. No chão, muda e desamparada, a perna sossegada a aguardar. “Acho que me cortei.” Pensou o lenhador atónito. Atónito e um pouco trémulo, a buscar o equilíbrio muito mais difícil com uma perna só.            E não se deve prosseguir a história sem que o narrador esclareça um pormenor intrigantemente determinante. Quando a dor supera o suportável, o nosso sistema nervoso não a sabe interpretar e acaba por ...

burocracia

receio o minotauro receio as bestas, por familiaridade mas sei que o perigo está nos labirintos diz o que queres, Maria.

Passei por lá

Passei por lá só para dizer olá Lembrei-me que a vontade de amar é uma pulsão livre Foda-se! Apetecia-me dizer-te olá E sem planos, vesti o melhor sorriso possível e passei por lá Ao lá chegar, disse: Olá! E ía a passar assim, no bestial abandono da minha liberdade Quando me agarraste e apertaste E o ar solidificou dentro dos meus pulmões E vestias-me uma jaula de fera através do abraço E até nem me lembro de sentir as tuas mamas As tuas palavras batiam-me na cara como granizo E eu gastava os últimos espasmos a sacudir-me como um peixe E a miséria só poderia sublimar-se no poema Poema - prisão corpórea da liberdade de me aniquilares E eu só tinha passado para dizer olá

O Zé

O Zé é pescador. Tem um barco com asas. Também é meu vizinho. Das suas pescarias oferece-me algumas das minhas refeições. Que belos anjos fritos almocei ontem. Fresquinhos!

A mala dela

Na sua mala guardava muitas coisas. No dia em que me deixou, despejou-a veementemente sobre um sofá para procurar a chave de casa para me entregar. Atónito, reparei que trazia um porta-moedas, três notas e muitas moedas por guardar, meia dúzia de utilidades de maquilhagem, três tampões, uma carta aberta, uns colares ou pulseiras, mais uns brincos entre vários anéis, uma esferográfica com a Betty Boop, um isqueiro e um maço de tabaco, uma caixinha de dropes, um buda de plástico vermelho, uma cópia pirata de The Black Rider do Tom Waits, um pacote de lenços de papel, uma multa por estacionamento indevido, uma écharpe engelhada, um tacão partido de um sapato, um caroço de maçã seco, um bilhete de um concerto que aconteceu em 2014, um caderno, um carregador de telemóvel, um saca-rolhas, umas cuequinhas verdes de renda muito bonitas, uma fotografia de uma senhora velha, uma tablete de Chocolat Bonnat, um perfume, uma edição de bolso de Voyage au bout de la nuit de Céline, uma Beretta 1934, ...