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A tarde e estas paredes amarelas

A carregar estas paredes amarelas
( na verdade, são brancas
Nesta apneia do vagar silencioso onde encolho os ossos
Velando a saudade do riso com o carvão que escondo na boca
Como se o tempo existisse para me cortar a pele
E pelos golpes se escutasse o sussurrar dos mortos
Perguntando pelo lugar onde se esqueceram de estar
A carregar estas paredes amarelas
( na verdade, parecem brancas
Lembro que nunca ouvi perguntar a idade de uma maçã
Que se comem maçãs pelo brilho, côr e doçura
A honestidade realiza-se na erótica essencial das coisas
A luz ensina a ver e o tempo a ver melhor
A doçura do sangue aprende-se um pouco depois
A carregar estas paredes amarelas
( na verdade, não são amarelas
Como a febre dourada da tarde que se perde comigo
Há a distância fundamental de um tiro ou de um precipício
Invento jardins para me esconder e brincar
Alimentando a gordura do meu silêncio
Até que, sem lamber as feridas, falarei

(e talvez ninguém vá ouvir)

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