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A mostrar mensagens de março, 2012

OFÉLIA

Ofélia contava aí umas oitenta primaveras. Naquele invólucro flácido já tinham habitado muitas heroínas. A menina maria-rapaz a preto e branco congelada nas velhas fotografias, a cobiçada peituda da retrosaria Belamy da avenida, a vice-presidente da liga das virtudes do rosário, a campeã regional de badmínton sénior e, mais recentemente, a minha peculiar avó, doente crónica de meia-dúzia de coisas e que vivia engolida por um sofá azul pálido do qual pendiam os seus braços em delirante movimento. Vivia orgulhosamente só. Pensionista. Uma conversadora vocacionada para o monólogo simpática e orgulhosamente imposto. Viciada em fervorosos diminutivos e empunhando a espada flamejante do arcanjo Gabriel, contra os demónios da sua incompreensão, com licença de uso e porte de arma. – Essa gentinha sem berço que anda por aí a estragar o que cristo veio arranjar ainda há de ver, no dia do juízo final… Relampejava firme, gesticulando com o balanço e a tensão desconcertante dos maestros das orquest...