De repente, marcam serões de vaidade e paciência para os duelos das palavras.
Já não há frio de cortar. Por aqui, já não há muita fome que dispa os ossos.
As maleitas portam-se bem. Pagam a renda - antes do dia oito e tudo - e vão convivendo connosco num inevitável parasitismo. Duram connosco. Nunca percebi quem é que fica a perder.
De repente, já não há passeios nem festins nem danças nem guerras na avenida. Quem quer disso que ligue a televisão. As festas e as guerras estragam a elegância. E o sexo faz-se atrás dos arbustos ou dos biombos ou não se faz. Se nos despentearmos, estamos escondidos.
Confundimos festas e guerras, nos sofás. Nos bares, nas galerias, nos restaurantes e nas livrarias. Sempre muito bem penteados. O sofá é a placa de petri dos contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta. Sentados nos solventes sofás, poderiam lá perdurar. A palavra percorreria toda a cabeça, rodeando as órbitas, até que os músculos, os ossos e as vísceras se entranhassem no leito do sofá. Sobre o colo, uma manta testemunharia aos arqueólogos vindouros sobre o sangue quente que se recusou a pulsar, apodrecendo. Será o sudário que lembrará nas manchas de sangue que houve um tempo perdido em que o desejo contrastava com o sofá e as palavras eram caricaturas grosseiras de experiências avassaladoramente maiores.
São os vendilhões do tempo. Os arautos do tempo perdido. Vende-se palavras de todos os tamanhos, pesos, côres, texturas. São roupagem apenas. Fardas de fantasmas e do éter. Oferece-se palavras como brindes de outras palavras. Os mais avançados laboratórios de contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta já produzem palavras flexíveis. Possibilitam uma significação posterior flexível. Existem antes do seu próprio significado. São a estrutura mais relevante da honestidade dos contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta.
No hemisfério norte produzem-se setecentos mil biliões de palavras por dia. Há quase mil milhões de pessoas com fome no mundo. Essas só produziram cerca de cinco mil milhões de palavras por dia. Em Londres, gastam-se oito mil milhões de advérbios de modo por dia. Produziram-se mais de dois milhões de sofás, no último trimestre de 2017, na europa. No natal passado, a versão sms (short message service) do Don Quijote de la Mancha bateu o record mundial de vendas. O modelo de sofás Klippan da Ikea, bateu igual record, no mesmo período.
É o espetáculo do primeiro mundo a pavonear-se na suas embalagens linguísticas. O segundo mundo é o público entusiasta e o operário de produção. Enquanto isso, o terceiro, torrado pelo sol, vive intensamente os conteúdos que transbordam da percepção faminta de formas insuficientes. A carne, o sangue, a água e o brilho dos olhos são diferentes a mais de quarenta graus.
Não é verdade meu grande filho da puta?
Já não há frio de cortar. Por aqui, já não há muita fome que dispa os ossos.
As maleitas portam-se bem. Pagam a renda - antes do dia oito e tudo - e vão convivendo connosco num inevitável parasitismo. Duram connosco. Nunca percebi quem é que fica a perder.
De repente, já não há passeios nem festins nem danças nem guerras na avenida. Quem quer disso que ligue a televisão. As festas e as guerras estragam a elegância. E o sexo faz-se atrás dos arbustos ou dos biombos ou não se faz. Se nos despentearmos, estamos escondidos.
Confundimos festas e guerras, nos sofás. Nos bares, nas galerias, nos restaurantes e nas livrarias. Sempre muito bem penteados. O sofá é a placa de petri dos contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta. Sentados nos solventes sofás, poderiam lá perdurar. A palavra percorreria toda a cabeça, rodeando as órbitas, até que os músculos, os ossos e as vísceras se entranhassem no leito do sofá. Sobre o colo, uma manta testemunharia aos arqueólogos vindouros sobre o sangue quente que se recusou a pulsar, apodrecendo. Será o sudário que lembrará nas manchas de sangue que houve um tempo perdido em que o desejo contrastava com o sofá e as palavras eram caricaturas grosseiras de experiências avassaladoramente maiores.
São os vendilhões do tempo. Os arautos do tempo perdido. Vende-se palavras de todos os tamanhos, pesos, côres, texturas. São roupagem apenas. Fardas de fantasmas e do éter. Oferece-se palavras como brindes de outras palavras. Os mais avançados laboratórios de contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta já produzem palavras flexíveis. Possibilitam uma significação posterior flexível. Existem antes do seu próprio significado. São a estrutura mais relevante da honestidade dos contemporâneos eruditos e de outros tipos de filhos da puta.
No hemisfério norte produzem-se setecentos mil biliões de palavras por dia. Há quase mil milhões de pessoas com fome no mundo. Essas só produziram cerca de cinco mil milhões de palavras por dia. Em Londres, gastam-se oito mil milhões de advérbios de modo por dia. Produziram-se mais de dois milhões de sofás, no último trimestre de 2017, na europa. No natal passado, a versão sms (short message service) do Don Quijote de la Mancha bateu o record mundial de vendas. O modelo de sofás Klippan da Ikea, bateu igual record, no mesmo período.
É o espetáculo do primeiro mundo a pavonear-se na suas embalagens linguísticas. O segundo mundo é o público entusiasta e o operário de produção. Enquanto isso, o terceiro, torrado pelo sol, vive intensamente os conteúdos que transbordam da percepção faminta de formas insuficientes. A carne, o sangue, a água e o brilho dos olhos são diferentes a mais de quarenta graus.
Não é verdade meu grande filho da puta?
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