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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2011

É PRECISO DIZER URGENTEMENTE AOS GATOS

É preciso dizer urgentemente aos gatos Que o valor do meu coração é um encargo árduo Que o sangue que trago nos copos interiores Não coagula, [ nem com a gula ] Que o vento não me arrefece as artérias Passeia-me as delícias proibidas Que arranho os joelhos como um puto Para subir a tua carapaça dura Que levo o troar de uma horda mongol Abandonada pelas armas e dedicada à música Que sou um pedaço de lama inteligente, nada mais, E que sonho todos os dias, quase sempre acordado Que gosto de me esconder brincando à estupidez Para não deixar-me ser pedaços de saudade espalhada Que estou muito cansado e que gosto Que estou sempre de saída, ficando em todo lado Que me adapto como se já fosse E que sou como se não existisse Trago o coração na mão esquerda E um cigarro na direita Não sou alto nem baixo Novo nem velho Será fácil fugir ou ficar E quase sempre, ao mesmo tempo Por isso, se de mim esperas alguma coisa Eu não tenho nada Se queres nada, dá-me a mão Convida-m...

O MEU BOLSO ESQUERDO

Hoje sou o meu melhor inimigo Cheio de esperança, de dolorosa esperança Dançando pateticamente essa fraqueza de não saber verdadeiramente ser vento Sorrindo sangue nos espelhos cúmplices dos outros E guardando qualquer coisa no meu bolso esquerdo

LÍNGUAMÃE

Esta história é muito muito velha... O meu avô é muito muito velho... É mais velho que o rio que passa lá na aldeia. Nem o meu avô – que é muito muito velho – se lembrava desta história. Há muito tempo, havia uma mãe. Uma grande mãe. Era a mãe de todas as pessoas que existiam. Era a única mãe que existia. Chamava-se Línguamãe! O seu nome servia como uma luva. A Línguamãe sabia muitas coisas. Sabia o nome de quase todas as coisas e por isso sabia dizer quase tudo. Sabia o nome de todas as flores que cresciam até ao pôr-do-sol, dava bons conselhos e sabia contar lindas histórias cheias de palavras que dançavam na luz da vela. As palavras saiam da sua boca com ternura e encantavam todos os que a ouviam. Todas as palavras que existiam tinham sido inventadas por ela. Assim, ensinou a todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – que aprendia tudo com o Sol. Com a sua voz serena, repetia sem se cansar: - Pela manhã, bem cedo, o Sol afasta o manto negro da noite e mostra-me todas...