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Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2018

Presépio

O rebento era hediondo. A pele amachucada e manchada reluzía, expondo a frescura da placenta e do odor da dequitadura. E chorava e cagava, como era de se esperar dos rebentos. E como se tivesse culpa da sua fealdade, estava ali, despido num monte de palha a aguardar uma pneumonia, a expôr a estupidez dos progenitores que se aqueciam no egoísmo dos mantos, um grosso e pesado, castanho, de flanela e outro pendente da cabeça e muito quente, de veludo azul. Os animais, mais uma vez explorados, bafejavam o ar quente para atenuar a fragilidade da criança. Ela reclinava o pescoço cerca de dez graus, edificando o seu porte arrogante, o seu rosto amorfo, místico, desconfiado, sem o sorriso ou o choro louco das mães nem o cansaço miserável das parideiras. Aprumada no brilho seráfico do manto azul,  a mulher convivia harmoniosamente com a abstinência de ser colo. Ele envergava a máscara do desespero contido dos jogadores que perdem e escondem, ligeiramente debruçado sobre a criança e com os o...

PAN - violência doméstica III

É preciso - urgentemente - censurar os meus escritos Amordaçar-me até às orelhas Impedir o meu sorriso (lancetando-o para o inverter) Desfocar-me Despentear-me ainda mais Exportar-me para os Estados Unidos para que me possam torturar democraticamente Abaixo-assinar a minha eutanásia para aliviar o sofrimento de que já nada sei Extrema-ungir-me Ter um bocadinho de pena de mim e lembrar-me um minuto, talvez no Natal Para garantir o que é distintivo da decência e Proteger a educação do seu animal doméstico

Retrato do psicopata que apodreceu

Ele olhava o espelho e perguntava a origem da sombra que via no reflexo A memória tatuada de três brinquedos usados em rituais cíclicos As palavras habituais do pai habitualmente bêbedo, cicatrizadas no olhar quase sereno Uma fotografia a conservar o único sorriso que conhecera da mãe, muito jovem Uma lembrança de Fátima, de vidro, contendo água e com a palavra Fátima  dourada Um lenço que ficou esquecido, da única namorada que teve, há mais de dez anos, a Celeste A coleira pendurada na parede e o cheiro do Jonas, o pastor alemão, que entranhou naquele tapete castanho, desde o tempo da Celeste, Aquele postal estúpido da siderúrgia nacional, com um presépio de ferro a desejar bom natal de 1994, E acima de tudo, aquela maravilhosa amiga... a única que o compreendia e que o vestia como uma luva Aquela que teria que tratar como uma filha, do mesmo modo que ela o fez filho sem pai, sem mãe, sem Celeste, sem Jonas e sem o senhor Teles, o vizinho A que conseguiu calar as vozes q...

a tempestade

Havia um mar de sombras, revolto, Que martelava os titânios das fraldas do mundo E desmaiava em espuma murmurante, nas rochas Havia o canto alarmante de uma gaivota desorientada A escrever no vento as tremuras de todas as dúvidas do universo Um cadáver de um guarda-chuva a dançar na estrada molhada E um amolador de facas a trepar a planura do vento Por entre a chuva, a reluzir na estrada. E a inclinação dramática da bicicleta A esconder-se da candura delirante das mãos aflitas dos filhos Que agarram as clavículas das mães e dos pais, a sussurrar medos E desses  medos, a brotar, surpreendente e espontânea, alguma coragem Em forma de castanheiro! A máscara de força da fragilidade dos pais Que hipotecam os braços no colo dos filhos amedrontados, choramingas E uma mãe que ainda não era, mergulhada no abandono de uma sombra Com os finos tornozelos expostos ao frio das folhas caídas e molhadas As núvens a alargar o bréu e a confundirem os olhos por entre a indefinição dos ...
Se um dia te fartares de não conseguir olhar-me nos olhos mais do que dois segundos Lembra-te de trazer cuecas novas e não abuses de perfume, para não enjoarmos

Descriminação de género ou LGBT sem H

Peço perdão por gostar de mulheres Peço perdão por apreciar as delicadezas particulares de fêmea Peço perdão por gostar de mamas E de ancas a ladearem cús, com vaginas à frente E até o brilho dos olhos, nem que seja para disfarçar Sou um preconceituoso do caralho PS: mereço castigo severo. Aceitam-se mamas que me castiguem