Ser português é uma doença. Não façam pouco, que se sofre. Jorros de contestação nos cafés, nas esquinas e nos sofás. Chafarizes de indignação, com pés bem cimentados no chão. Gritamos: revolução! No cabeleireiro, no futebol, na casa de banho. Depois, humildemente, fazemos vénias e entregamos a dignidade dos nossos filhos, de graça, para não incomodarmos o Senhor Doutor, o Senhor Corregedor, o Senhor Prior, o Senhor Director e o Senhor Engenheiro. Que por acaso são nossos amigos. Uns tipos sérios. Ainda ontem, no café, concordaram que isto tem que mudar. Isto tem que mudar. Isto tem que mudar. Mudar, em português, significa praticar a fala do mudo: dizer muito, muito, muito e não concretizar nada. Se isto parecer já não é mau. Lá fora, é muito pior. Somos uma miséria debruada a ouro falso, com honras de banda filarmónica militar a esganiçar marchas desafinadas. O nosso maior charme ocorre nas vielas. Ás escondidas, a pobreza não disfarça e tem os olhos brilhantes. Os gatos, as vel...