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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2018

Pessoas–Animais–Natureza

Eu, aqui sentado à mesa, a almoçar quatro magras sardinhas E estou indignado com a exploração animal Como é que aquele estúpido cocker spaniel, De colar de brilhantes e capa de lã, Pode torturar de tal modo a senhora que o acompanha, Levando-a a andar de quatro, a comer ração e A falar com aquela voz histérica carregada de diminutivos?

Pimba e circunstância

Dar de fumar a quem tem fome É o que faz o senhor general Sua eminência, o senhor arcebispo E o virtuosíssimo senhor presidente Na sombra do cetim da bandeira Com o aflito troar da tarola As palminhas tolas do povo O orgasmo do fogo de artifício Pelo bem da decência nacional Com pimba e circunstância

A Fellini

havia um rinoceronte gripado no porão do navio uma Messalina rabeante a arrastar plumas de pavão a sombra das correntes de um homem-mais-forte-do-mundo sobre as lágrimas escondidas da arlequina a abundância da matrona acamada reconfortando o escaldão do filho narigudo o falso ditador discursa a cerimonial flatulência revelação dos seios na cozinha napolitana as máscaras cadavéricas do arcebispo e do cardeal negros vampiros com babadoiros púrpuras  a sereia nórdica da fonte de Trevi e o desejo do mancebo elegante na bandeja  a raposinha moribunda na praia a motorizada a ranger no incêndio da aldeia os terraços de Calígula a dançarem e a polícia a adoçar as criancinhas a puta cansada a aliviar-se dos sapatos e a alcoviteira a despejar inseticida  o teatro de sombras de uma velha civilização  no fogo de artifício dos faróis dos motards 

E tudo o vento levou (obrigado pelo título, Miguel)

Josefina acabou com o cão de Ludovico A lagartixa de Tomás deixou de falar com Eva Joaninha insultou Lena por causa do Raimundo Núrio diz que já não consegue ver Mara O carteiro está cansado de entregar cartas a Mariana e desiste Sara deixou de gostar do sorriso de Manuel e emigrou Gaspar ganhou uma bolsa de estudos no Laos e deixou Filomena Trezentos e setenta e um motivos, todos privados, engraçados, disparatados, tristes, previsíveis No café onde se encontravam, o silêncio debaixo dos candeeiros e menos três cariocas de limão, catorze cafés, sete cervejas, dois bolinhos, quatro tostas mistas e seis copos de água, por dia O desamor é insustentável
Havia um rapaz tímido guardado na gaveta de certa senhora Naquelas noites, a certa senhora abria a gaveta Em algumas manhãs, fechava-a e guardava a chave no decote Ninguém poderia prever a disposição da senhora ou da gaveta A senhora era a cabeça que decidia quando a cómoda abria a boca A boca, em certas senhoras, dos rapazes tímidos Naquelas noites, em algumas manhãs
Depois de morrer Quero que me venhas visitar, de vez em quando, Quero que te sentes na minha campa Que desças as cuequinhas E que mijes na fria lápide de granito Depois, imagina que o fumo quente da pedra Sou eu a regressar. E ri um bocadinho

Mil mãos

Somos Mil mãos a tatear Mil mãos a apanhar areia Mil mãos a sacudir o sangue Mil mãos cansadas dos bolsos Mil mãos com saudade da enxada Mil mãos que procuram uma mão Mil mãos esquecidas Mil mãos comem vento Mil mãos a apodrecer por dentro Mil mãos a gritar Mil mãos frágeis, perdidas Mil mãos de náufragos Mil mãos a sonhar
O teu sorriso soltaria treze canários e O brilho dos teus olhos afastaria de vez os invernos Se numa fria manhã de outono Me oferecesses uma maminha cor-de-rosa
O elefante bebeu o vinho da eucaristia A cascavel mijou o balcão da repartição de finanças  O gafanhoto masturbou-se no tribunal A gaivota vomitou na varanda do parlamento O linguado saracoteou-se no corredor da reitoria A doninha roubou a morfina do hospital É assim É assim que os animais participam É assim que os animais respeitam as instituições e a soberania

união europeia: erasmus

Borislav, de Burgas, ofereceu um cunilingus a Chiara, de Salerno. Dois dias depois, encontraram-se numa reunião de trabalho e discutiram planos de investimento, balancetes e orçamentos. Agnes, de Nicósia, gosta de ligerastia com Manon, de Sète. Nunca se vê nada. Tomam o pequeno almoço banhadas pelo sol, no terraço. Os robes de cetim com motivos chineses incendeiam a manhã. Por vezes, cortam as unhas dos pés depois de terminarem lentamente a refeição. Heidi, de Nuremberg, distraidamente e contra as expectativas, precipitou-se num fellatio a Lazaros, de Tripoli. Heidi nunca mais foi áquela discoteca de Amesterdão. Metódica, nunca repete uma discoteca. Lazaros foi lá três vezes. Em todas elas, bebeu apenas um copo e saiu pouco tempo depois. Carmem, de Sevilha, acolheu nos seios Björn, de Uppsala. Ao fim da noite, a espanhola lavou-se apressadamente e sozinha. Björn cantarolava uma canção dos Abba precisamente no momento em que Carmem saiu, batendo a porta com ímpeto. Ethan, de Norwich...