Um lenhador aproveitava a vantagem produtiva de uma motosserra, cooperando alegremente com os optimismos do progresso, procrastinando nas ecologias. Corte, serrim, farpa e lenha, rodopiavam com a mesma alegria no esquartejamento metódico das árvores. Assobiava uma modinha previsível e de ritmo fácil, emprestando um sentido eufemista à devastação. A cortar um ramo mais baixo, com algum desleixo atrevido, levou a lâmina para a coxa e desenhou uma insólita amputação. A secção clara do fémur, redondinha, contrastava com o manancial encarnado. No chão, muda e desamparada, a perna sossegada a aguardar. “Acho que me cortei.” Pensou o lenhador atónito. Atónito e um pouco trémulo, a buscar o equilíbrio muito mais difícil com uma perna só.
E não se deve prosseguir a história sem que o narrador esclareça um pormenor intrigantemente determinante. Quando a dor supera o suportável, o nosso sistema nervoso não a sabe interpretar e acaba por dizer: “Foda-se. O que é esta merda?” Seguindo-se uma espécie de pasmo reflexivo no lugar onde deveríamos sentir dor, berrar muito e construir um momento dramático. Por motivos de gosto, escusei-me a esta tendência.
Depois de ser levado para um estado ébrio antagónico à dor, o lenhador intrigava-se com a irritante comichão que passou a sentir no pé da perna decepada. Só valorizamos as nossas namoradas depois de elas nos deixarem…
Segue-se a isto um período de tempo sem nada de interesse. Abrevio-o funcionalmente num lapso conceptual que talvez nos salve do tédio. Envolve um encontro, um telefonema, uma ambulância e uma deslocação a um hospital.
Os hospitais são sempre lugares interessantes. Para além da diversidade morfológica humana, há uma arena de esperas condoídas exprimindo olhares desconcertantes que fazem lembrar o Peter Lorre. Por vezes, são gajas boas que conseguem olhar com os olhos do Peter Lorre. Ou até crianças gordas. Toda esta multidão de olhares dadaístas, enquadra-se nos vestígios neoclássicos da arquitetura. Estes edifícios parecem drag queens neoclássicas. Foram mudados aqui e ali: uns balcões muito modernos e o tédio dos tons pastel rematados por pórticos colunados de granito velho, uns posters coloridos sobre pneumonias e seguros de saúde arranjadinhos ao lado de gravuras do século dezoito. As idiossincrasias estranhas a ocupar o mesmo espaço sem acordo nem conflito, mas todas no lugar, como um presépio.
O lenhador entrou de rompante numa maca empurrada por um bombeiro gordo. Segurava a maca com as mãos e erguia ligeiramente o corpo, surfando os corredores, até chegar a uma sala pequena com paredes amarelas e duas portas. De uma delas apareceu uma enfermeira. Uma mulher especialmente elegante e voluptuosa. A saia muito curta e muito justa balançava com a dança dos seus passos. A blusa esvoaçante denunciava a lassidão dos botões. O lenhador ia tentando disfarçar o advento de uma ereção. O que não era muito fácil. Com uma perna tornava-se habilidade para contorcionista.
A enfermeira ajoelhou-se sobre o coto da perna dilacerada do lenhador, reclinando-se e suscitando a graça de mais generosas revelações. Ao falar pela primeira vez paralisou toda a possibilidade de vida alheia à sua sensualidade que ali pudesse existir. Um veludo grave, ligeiramente rouco, letalmente feminino, ensinava-nos até onde podiamos ouvir e envolvia toda a matéria. As paredes amarelas pulsavam com a frequência das suas sílabas. Uma voz de arrepiar os pêlos dos tomates. “Isto está feio…” Feio era algo estranho para pensar enquanto ela falava. “Está a doer?” Perguntou. Arrebatado, o lenhador não conseguia responder. Pasmado, exibia um quase sorriso simultaneamente lúbrico e ausente. O caramelizado carmim dos lábios combinava com o brilho de uns olhos esbugalhados. A enfermeira, meigamente, afagou o cabelo crespo de lenhador, percorrendo a sua nuca com os dedos. O lenhador cerrava os dentes, construia um estranho esgar, fechava os olhos e suspirava.
“Pronto. Já passou.” Rematou, acocorada depois de soprar veementemente sobre o coto resultante da amputação. Depois, levantou-se muito segura, deixou cair um último sorriso e saiu da sala.
E não se deve prosseguir a história sem que o narrador esclareça um pormenor intrigantemente determinante. Quando a dor supera o suportável, o nosso sistema nervoso não a sabe interpretar e acaba por dizer: “Foda-se. O que é esta merda?” Seguindo-se uma espécie de pasmo reflexivo no lugar onde deveríamos sentir dor, berrar muito e construir um momento dramático. Por motivos de gosto, escusei-me a esta tendência.
Depois de ser levado para um estado ébrio antagónico à dor, o lenhador intrigava-se com a irritante comichão que passou a sentir no pé da perna decepada. Só valorizamos as nossas namoradas depois de elas nos deixarem…
Segue-se a isto um período de tempo sem nada de interesse. Abrevio-o funcionalmente num lapso conceptual que talvez nos salve do tédio. Envolve um encontro, um telefonema, uma ambulância e uma deslocação a um hospital.
Os hospitais são sempre lugares interessantes. Para além da diversidade morfológica humana, há uma arena de esperas condoídas exprimindo olhares desconcertantes que fazem lembrar o Peter Lorre. Por vezes, são gajas boas que conseguem olhar com os olhos do Peter Lorre. Ou até crianças gordas. Toda esta multidão de olhares dadaístas, enquadra-se nos vestígios neoclássicos da arquitetura. Estes edifícios parecem drag queens neoclássicas. Foram mudados aqui e ali: uns balcões muito modernos e o tédio dos tons pastel rematados por pórticos colunados de granito velho, uns posters coloridos sobre pneumonias e seguros de saúde arranjadinhos ao lado de gravuras do século dezoito. As idiossincrasias estranhas a ocupar o mesmo espaço sem acordo nem conflito, mas todas no lugar, como um presépio.
O lenhador entrou de rompante numa maca empurrada por um bombeiro gordo. Segurava a maca com as mãos e erguia ligeiramente o corpo, surfando os corredores, até chegar a uma sala pequena com paredes amarelas e duas portas. De uma delas apareceu uma enfermeira. Uma mulher especialmente elegante e voluptuosa. A saia muito curta e muito justa balançava com a dança dos seus passos. A blusa esvoaçante denunciava a lassidão dos botões. O lenhador ia tentando disfarçar o advento de uma ereção. O que não era muito fácil. Com uma perna tornava-se habilidade para contorcionista.
A enfermeira ajoelhou-se sobre o coto da perna dilacerada do lenhador, reclinando-se e suscitando a graça de mais generosas revelações. Ao falar pela primeira vez paralisou toda a possibilidade de vida alheia à sua sensualidade que ali pudesse existir. Um veludo grave, ligeiramente rouco, letalmente feminino, ensinava-nos até onde podiamos ouvir e envolvia toda a matéria. As paredes amarelas pulsavam com a frequência das suas sílabas. Uma voz de arrepiar os pêlos dos tomates. “Isto está feio…” Feio era algo estranho para pensar enquanto ela falava. “Está a doer?” Perguntou. Arrebatado, o lenhador não conseguia responder. Pasmado, exibia um quase sorriso simultaneamente lúbrico e ausente. O caramelizado carmim dos lábios combinava com o brilho de uns olhos esbugalhados. A enfermeira, meigamente, afagou o cabelo crespo de lenhador, percorrendo a sua nuca com os dedos. O lenhador cerrava os dentes, construia um estranho esgar, fechava os olhos e suspirava.
“Pronto. Já passou.” Rematou, acocorada depois de soprar veementemente sobre o coto resultante da amputação. Depois, levantou-se muito segura, deixou cair um último sorriso e saiu da sala.
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