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Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2019
Naquele dia a diária podia ser vitela estufada ou carapaus grelhados. Ele não sabia o que fazer, tocava piano no ar da mesa e percebia como odiava principiar. Pior que principiar, era quando, no momento mais inoportuno, regurgitava a diária do dia anterior, em cima da diária do dia de hoje.  Estragar uma diária era destruir o charme de acontecer, com aquela dimensão, com aquele preço, uma vez por dia. Agora, tinha anulado a anterior e tinha duas que não queria, naquele lugar onde devia haver uma que iria querer. Aproveitou para pedir, assim, dois cafés e duas sobremesas. Se havia algo que gostava daquele imundo estabelecimento, era o maravilhoso bolo de chocolate da Senhora Mariana. Pornograficamente cremoso e saboroso. Então, dois... Enquanto aguardava, folheava o jornal, impávido. Impostos vão... Presidente da... Dois feridos... Incêndio em fábrica de... Novo medicamento... Mulheres sentem... Vitória de Setúbal... até que vê o seu retrato no obituário e congela. Morrer i...

olhó passarinho

Inquieto, observou o serrote como se procurasse alguma coisa numa sala vazia.  Perplexo, Magritte perguntou:  Onde está o passarinho? Com a ironia do abandono dos putos, a gaiola quebrada sorria para a intriga que o reconhecido invocador de cachimbos ausentes acabava de criar.  Se os seus  ceci n’est pas une pipe  atraiçoaram umas conveniências semióticas - e parece que foi uma chatice! -, agora, a espontaneidade silvestre da sua reação evocava a presença na ausência. Era como se dissesse: isto é um passarinho . Enquanto apontava para a dentadura solitária do serrote, para uma gaiola abandonada, fazendo acender-se um passarinho com o peso de uma montanha.  A usura da forma das coisas secamente coisificadas - como Magritte nos ensinou através das suas imagens de cachimbos - assombra-as do vazio factual dos artifícios. O poder mágico da poética está no próprio artifício enquanto jogo e nunca na mera materialização. O passaroco, imagem fácil na memória...
Pendurado          na arcada das clavículas, O teu mamilo          maduro A pingar,          carmim, Sobre os tesouros          Que guardarei, Perpétuos No brilho do pó          Que sobrar do adeus          Dos meus ossos

os teus joelhos

Jamais os vi Ouço os seus segredos Se o mundo aprendesse a delicadeza dos teus joelhos Se na absolvição dos medos se cantasse as tuas rótulas Se fizesses das minhas mãos o teu genuflexório  Poderias colocar-me moedas nos olhos e segurar a minha mão Para que me arrependesse absolutamente de partir
Como um sopro de adeus, cresceu-me na língua um profundo silêncio Aspergindo saudade e vontade de esquecimento Até nascerem novas palavras para conseguir falar