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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2018

Em memória de um nariz partido (ao Sá)

O chão bateu-me na cara Numa noite morna e esverdeada Lembrava pouco do que se tinha passado Antes de ser socado pelo passeio de cimento Levantei-me com uma máscara de sangue A escorrer como um cachecol  Ainda cortei uma mão numa poça envidraçada E sujei outra, não sei como, manga acima Numa mistela nauseabunda Havia monstros a falar muito alto e ao mesmo tempo Que me agarravam as mangas e puxavam Dezenas de faces obscuras e viciosas Amontoavam cacofonias indecifráveis  As luzes perfuravam-me os olhos E uma porção de barro, muito azeda, Bloqueava a minha garganta inerte Onde se sobrepunha uma cabeça De três toneladas de delirante cinética A tentar escapar do pesadelo No outro dia, não percebia como é que  O Rasputine me tinha deixado em casa Salvo, sujo e com o nariz partido

Bilal esconde pião da minha avó

Surpreendi o Enki Bilal a esconder a pião da minha avó. - Bilal, pára de ser chato e devolve o pião à velha. Já te disse que apesar do teu grande talento és um chatinho. E agora, andas a investir nas traquinices para me tentares convencer que és como o Duchamp?! Estás louco... Lembras-te quando o Crumb te tentou explicar porque é que, apesar do teu grande talento, és um grande chatinho? É por estas e por outras. (Depois de devolver o pião à velha em seráfica humildade, o homem ficou azul)

Versículos sangrados

[ sobre o sublime concerto número dois, para piano e orquestra, de Rachmaninoff, tocado por Van Cliburn, em 1958, em Moscovo, em que, por instante, me distraí a pensar que lhe faltava uma nota Se eu cortasse um dedo Verteria o grude num copo de cerveja, Tapava a fermentação com um trapo E observava a eruptir-se a rosa podre Que ninguém o tome Que ninguém o beba Este copo de cerveja Guarda agora o meu sangue O sangue da desavença entre as falanges do meu dedo, que por mim foi derramado            e por todos os eus atónitos            na sombra do corte e            que - cúmplices do gume -            não impediram Para remissão das manias burguesas Da anatomia pré-fabricada Que desperdiçou num copo de cerveja A memória jacente de um LÁ  omitido
Abriu a caça aos patos            (Uma guerra visceral) Ninguém sabia se As pessoas gastavam os espelhos Ou se Os espelhos gastavam as pessoas Pelas ruínas que ficam Sei que espelhos sobrevivem a pessoas Pessoas também sobrevivem a pessoas Nunca senti saudade de espelhos