Ser português é uma doença.
Não façam pouco, que se sofre.
Jorros de contestação nos cafés, nas esquinas e nos sofás.
Chafarizes de indignação, com pés bem cimentados no chão.
Gritamos: revolução! No cabeleireiro, no futebol, na casa de banho.
Depois, humildemente, fazemos vénias e
entregamos a dignidade dos nossos filhos, de graça,
para não incomodarmos o Senhor Doutor, o Senhor Corregedor,
o Senhor Prior, o Senhor Director e o Senhor Engenheiro.
Que por acaso são nossos amigos. Uns tipos sérios.
Ainda ontem, no café, concordaram que isto tem que mudar.
Isto tem que mudar. Isto tem que mudar.
Mudar, em português, significa praticar a fala do mudo: dizer
muito, muito, muito e não concretizar nada.
Se isto parecer já não é mau. Lá fora, é muito pior.
Somos uma miséria debruada a ouro falso, com honras de
banda filarmónica militar a esganiçar marchas desafinadas.
O nosso maior charme ocorre nas vielas. Ás escondidas, a
pobreza não disfarça e tem os olhos brilhantes.
Os gatos, as velhas, as janelas. As putas e os bêbedos.
Os estendais com a roupa a secar, as pombas e as gaivotas.
As nesgas de mar por entre os casebres. A bruma.
Num país que esqueceu a bondade e nunca soube nada sobre a rosa.
Ser português é ter muita saudade de sabe-se lá o quê.
Talvez da dignidade humana, de que há muito desistimos.
É orgulharmo-nos da vagina impoluta da Nossa Senhora
e do milésimo golo do Ronaldo e da supremacia gastronómica dos
pasteis de nata e dos grandes escritores que não lemos e
dos grandes reis que sempre nos protegeram e cuidaram
que não espevitássemos em demasia e ousássemos a vergonha
de pensarmos pelo apêndice que vive pousado no nosso pescoço.
Ser português é uma doença.
E não há memória de algum remédio.
Tenho alguma esperança na ciência.
Talvez um dia descubram uma cura.
Talvez descubram que não se "é" português,
mas que se "está" português.
Não façam pouco, que se sofre.
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