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olhó passarinho

Inquieto, observou o serrote como se procurasse alguma coisa numa sala vazia. 
Perplexo, Magritte perguntou: Onde está o passarinho?
Com a ironia do abandono dos putos, a gaiola quebrada sorria para a intriga que o reconhecido invocador de cachimbos ausentes acabava de criar. Se os seus ceci n’est pas une pipe atraiçoaram umas conveniências semióticas - e parece que foi uma chatice! -, agora, a espontaneidade silvestre da sua reação evocava a presença na ausência. Era como se dissesse: isto é um passarinho. Enquanto apontava para a dentadura solitária do serrote, para uma gaiola abandonada, fazendo acender-se um passarinho com o peso de uma montanha. 
A usura da forma das coisas secamente coisificadas - como Magritte nos ensinou através das suas imagens de cachimbos - assombra-as do vazio factual dos artifícios. O poder mágico da poética está no próprio artifício enquanto jogo e nunca na mera materialização. O passaroco, imagem fácil na memória de qualquer um, abandonou-nos a tempo de se salvar de o tornarmos um troféu delicodoce e ensinou-nos a sonhar. Se o que vemos é menos do que o que sonhamos, provavelmente, estamos num melhor caminho.

[ sobre a imagem, muito contestada, do REALIZAR:poesia 2019, que criei em fevereiro do mesmo ano ]

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