Naquele dia a diária podia ser vitela estufada ou carapaus grelhados.
Ele não sabia o que fazer, tocava piano no ar da mesa e percebia como odiava principiar. Pior que principiar, era quando, no momento mais inoportuno, regurgitava a diária do dia anterior, em cima da diária do dia de hoje. Estragar uma diária era destruir o charme de acontecer, com aquela dimensão, com aquele preço, uma vez por dia. Agora, tinha anulado a anterior e tinha duas que não queria, naquele lugar onde devia haver uma que iria querer.
Aproveitou para pedir, assim, dois cafés e duas sobremesas. Se havia algo que gostava daquele imundo estabelecimento, era o maravilhoso bolo de chocolate da Senhora Mariana. Pornograficamente cremoso e saboroso. Então, dois...
Enquanto aguardava, folheava o jornal, impávido. Impostos vão... Presidente da... Dois feridos... Incêndio em fábrica de... Novo medicamento... Mulheres sentem... Vitória de Setúbal... até que vê o seu retrato no obituário e congela.
Morrer implicaria muita coisa. Enterros e flores e campas e roupas pretas anaftalinadas. Contas que ficariam para pagar e ninguém para pagá-las. Consultas de dentista sem confirmação de comparência. Mas, acima de tudo, impossibilitaria o prazer do bolo de chocolate.
Mas, se ali estava, a folhear o jornal, a aguardar essa fatia de paraíso calórico, apesar de morto, porque não aproveitar? Não há nada que proíba um morto de comer bolo de chocolate.
O bolo chega, por fim. Desta vez com pepitas na cobertura. Afinal, estar morto tem as suas vantagens. Duas dentadas fervorosas e meia fatia no bucho. Na mastigação da terceira dentada apareceu algo estranho. Ele levou as mãos cuidadosamente à boca e retirou uma coisa muito pequena. Um menino Jesus com cerca de três milímetros.
Não só estava morto como tinha que levar com infantes sagrados no meio de um bolo que já não podia fazer mal. Maldito Natal e malditos presépios.
Apesar de estragada a paz de namorar o seu bolo, havia ali uma oportunidade única de fazer o bem. Decidiu voltar a colocar aquele menino Jesus mínimo na boca. Engoliu-o, cuidadosamente, para não o magoar. Esperava que uma habilidade das entranhas salvasse o menino de ser cagado e o mimasse e acalorasse e embalasse para que ele nunca mais quisesse sair.
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