Avançar para o conteúdo principal

Um chá de uma pessoa para a solidão de todos


Havia um bule onde cabia o que cabia na vontade de um
Um chá de uma pessoa
Havia um par de meias que era partilhado, um pé de cada cor
Meias para duas pessoas
Havia uma bicicleta que no verão levava um petiz, a irmã e o namorado
Uma bicicleta para três pessoas
Havia um desgosto amoroso entre dois pares descoordenados
Desgosto amoroso para quatro pessoas
Havia uma maçã roubada para dividir por cinco irmãos
Uma maçã para cinco pessoas
Havia uma mesa vazia com seis cadeiras
Uma mesa para seis pessoas
Havia uma boca de um pugilista socado mil vezes, com sete dentes autóctones
Uma pessoa para sete dentes
Havia mil pessoas a falar através de uma mão
Um Fernando Pessoa

Comentários

Mensagens populares deste blogue

para... a três vozes, em Si Maior

[I] A voz trémula [a]  risca no ar uma fina linha vermelha [II]  Em forma de pergunta, [b]  o olhar intermitente de um sorriso [III]  São flores silvestres [c]  que tatuas na minha vontade [IV]  De segurar a tua mão, [d]  de passar o tempo a tentar responder [V]  Em certas manhãs, [e]  a tempo de continuar a ser [VI] Encontro absoluto de bichos-da-seda [f] para lá do tempo e da morte [VII] Sem mentiras nem remorsos [g] em silêncio, a sentir a voz da pele [I],  [II],  [III],  [IV],  [V],  [VI],  [VII] ou [a],  [b],  [c],  [d],  [e],  [f],  [g] ou [I],  [a],  [II],  [b],  [III],  [c],   [IV],  [d],  [V],  [e],  [VI],  [f],  [VII],  [g]

Em memória de um nariz partido (ao Sá)

O chão bateu-me na cara Numa noite morna e esverdeada Lembrava pouco do que se tinha passado Antes de ser socado pelo passeio de cimento Levantei-me com uma máscara de sangue A escorrer como um cachecol  Ainda cortei uma mão numa poça envidraçada E sujei outra, não sei como, manga acima Numa mistela nauseabunda Havia monstros a falar muito alto e ao mesmo tempo Que me agarravam as mangas e puxavam Dezenas de faces obscuras e viciosas Amontoavam cacofonias indecifráveis  As luzes perfuravam-me os olhos E uma porção de barro, muito azeda, Bloqueava a minha garganta inerte Onde se sobrepunha uma cabeça De três toneladas de delirante cinética A tentar escapar do pesadelo No outro dia, não percebia como é que  O Rasputine me tinha deixado em casa Salvo, sujo e com o nariz partido

burocracia

receio o minotauro receio as bestas, por familiaridade mas sei que o perigo está nos labirintos diz o que queres, Maria.