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Retrato do psicopata que apodreceu

Ele olhava o espelho e perguntava a origem da sombra que via no reflexo
A memória tatuada de três brinquedos usados em rituais cíclicos
As palavras habituais do pai habitualmente bêbedo, cicatrizadas no olhar quase sereno
Uma fotografia a conservar o único sorriso que conhecera da mãe, muito jovem
Uma lembrança de Fátima, de vidro, contendo água e com a palavra Fátima dourada
Um lenço que ficou esquecido, da única namorada que teve, há mais de dez anos, a Celeste
A coleira pendurada na parede e o cheiro do Jonas, o pastor alemão, que entranhou naquele tapete castanho, desde o tempo da Celeste,
Aquele postal estúpido da siderúrgia nacional, com um presépio de ferro a desejar bom natal de 1994,
E acima de tudo, aquela maravilhosa amiga... a única que o compreendia e que o vestia como uma luva
Aquela que teria que tratar como uma filha, do mesmo modo que ela o fez filho sem pai, sem mãe, sem Celeste, sem Jonas e sem o senhor Teles, o vizinho
A que conseguiu calar as vozes que não o deixaram dormir, descansar, viver em paz, fumar o seu cigarro e ouvir música
A sua menina, a sua Remington 870, a ser preparada, agora, para o beijar na boca



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[I] A voz trémula [a]  risca no ar uma fina linha vermelha [II]  Em forma de pergunta, [b]  o olhar intermitente de um sorriso [III]  São flores silvestres [c]  que tatuas na minha vontade [IV]  De segurar a tua mão, [d]  de passar o tempo a tentar responder [V]  Em certas manhãs, [e]  a tempo de continuar a ser [VI] Encontro absoluto de bichos-da-seda [f] para lá do tempo e da morte [VII] Sem mentiras nem remorsos [g] em silêncio, a sentir a voz da pele [I],  [II],  [III],  [IV],  [V],  [VI],  [VII] ou [a],  [b],  [c],  [d],  [e],  [f],  [g] ou [I],  [a],  [II],  [b],  [III],  [c],   [IV],  [d],  [V],  [e],  [VI],  [f],  [VII],  [g]

Em memória de um nariz partido (ao Sá)

O chão bateu-me na cara Numa noite morna e esverdeada Lembrava pouco do que se tinha passado Antes de ser socado pelo passeio de cimento Levantei-me com uma máscara de sangue A escorrer como um cachecol  Ainda cortei uma mão numa poça envidraçada E sujei outra, não sei como, manga acima Numa mistela nauseabunda Havia monstros a falar muito alto e ao mesmo tempo Que me agarravam as mangas e puxavam Dezenas de faces obscuras e viciosas Amontoavam cacofonias indecifráveis  As luzes perfuravam-me os olhos E uma porção de barro, muito azeda, Bloqueava a minha garganta inerte Onde se sobrepunha uma cabeça De três toneladas de delirante cinética A tentar escapar do pesadelo No outro dia, não percebia como é que  O Rasputine me tinha deixado em casa Salvo, sujo e com o nariz partido

burocracia

receio o minotauro receio as bestas, por familiaridade mas sei que o perigo está nos labirintos diz o que queres, Maria.