O rebento era hediondo. A pele amachucada e manchada reluzía, expondo a frescura da placenta e do odor da dequitadura. E chorava e cagava, como era de se esperar dos rebentos. E como se tivesse culpa da sua fealdade, estava ali, despido num monte de palha a aguardar uma pneumonia, a expôr a estupidez dos progenitores que se aqueciam no egoísmo dos mantos, um grosso e pesado, castanho, de flanela e outro pendente da cabeça e muito quente, de veludo azul. Os animais, mais uma vez explorados, bafejavam o ar quente para atenuar a fragilidade da criança. Ela reclinava o pescoço cerca de dez graus, edificando o seu porte arrogante, o seu rosto amorfo, místico, desconfiado, sem o sorriso ou o choro louco das mães nem o cansaço miserável das parideiras. Aprumada no brilho seráfico do manto azul, a mulher convivia harmoniosamente com a abstinência de ser colo. Ele envergava a máscara do desespero contido dos jogadores que perdem e escondem, ligeiramente debruçado sobre a criança e com os olhos cheios de dúvidas. Em cima do telhado daquela manjedoura, outra criança de cerca de quatro ou cinco anos, igualmente despida e com umas pequenas asinhas de pombo nas costas, a arranhar de leve as cordas de uma lira, aguardando a pneumonia a que também tinha direito ou a salvação antecipatória de uma queda de cerca de três metros.
Chamem a CPCJ e o PAN!
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