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Presépio

O rebento era hediondo. A pele amachucada e manchada reluzía, expondo a frescura da placenta e do odor da dequitadura. E chorava e cagava, como era de se esperar dos rebentos. E como se tivesse culpa da sua fealdade, estava ali, despido num monte de palha a aguardar uma pneumonia, a expôr a estupidez dos progenitores que se aqueciam no egoísmo dos mantos, um grosso e pesado, castanho, de flanela e outro pendente da cabeça e muito quente, de veludo azul. Os animais, mais uma vez explorados, bafejavam o ar quente para atenuar a fragilidade da criança. Ela reclinava o pescoço cerca de dez graus, edificando o seu porte arrogante, o seu rosto amorfo, místico, desconfiado, sem o sorriso ou o choro louco das mães nem o cansaço miserável das parideiras. Aprumada no brilho seráfico do manto azul,  a mulher convivia harmoniosamente com a abstinência de ser colo. Ele envergava a máscara do desespero contido dos jogadores que perdem e escondem, ligeiramente debruçado sobre a criança e com os olhos cheios de dúvidas. Em cima do telhado daquela manjedoura, outra criança de cerca de quatro ou cinco anos, igualmente despida e com umas pequenas asinhas de pombo nas costas, a arranhar de leve as cordas de uma lira, aguardando a pneumonia a que também tinha direito ou a salvação antecipatória de uma queda de cerca de três metros.

Chamem a CPCJ e o PAN!

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para... a três vozes, em Si Maior

[I] A voz trémula [a]  risca no ar uma fina linha vermelha [II]  Em forma de pergunta, [b]  o olhar intermitente de um sorriso [III]  São flores silvestres [c]  que tatuas na minha vontade [IV]  De segurar a tua mão, [d]  de passar o tempo a tentar responder [V]  Em certas manhãs, [e]  a tempo de continuar a ser [VI] Encontro absoluto de bichos-da-seda [f] para lá do tempo e da morte [VII] Sem mentiras nem remorsos [g] em silêncio, a sentir a voz da pele [I],  [II],  [III],  [IV],  [V],  [VI],  [VII] ou [a],  [b],  [c],  [d],  [e],  [f],  [g] ou [I],  [a],  [II],  [b],  [III],  [c],   [IV],  [d],  [V],  [e],  [VI],  [f],  [VII],  [g]

Em memória de um nariz partido (ao Sá)

O chão bateu-me na cara Numa noite morna e esverdeada Lembrava pouco do que se tinha passado Antes de ser socado pelo passeio de cimento Levantei-me com uma máscara de sangue A escorrer como um cachecol  Ainda cortei uma mão numa poça envidraçada E sujei outra, não sei como, manga acima Numa mistela nauseabunda Havia monstros a falar muito alto e ao mesmo tempo Que me agarravam as mangas e puxavam Dezenas de faces obscuras e viciosas Amontoavam cacofonias indecifráveis  As luzes perfuravam-me os olhos E uma porção de barro, muito azeda, Bloqueava a minha garganta inerte Onde se sobrepunha uma cabeça De três toneladas de delirante cinética A tentar escapar do pesadelo No outro dia, não percebia como é que  O Rasputine me tinha deixado em casa Salvo, sujo e com o nariz partido

burocracia

receio o minotauro receio as bestas, por familiaridade mas sei que o perigo está nos labirintos diz o que queres, Maria.