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a tempestade

Havia um mar de sombras, revolto,
Que martelava os titânios das fraldas do mundo
E desmaiava em espuma murmurante, nas rochas
Havia o canto alarmante de uma gaivota desorientada
A escrever no vento as tremuras de todas as dúvidas do universo
Um cadáver de um guarda-chuva a dançar na estrada molhada
E um amolador de facas a trepar a planura do vento
Por entre a chuva, a reluzir na estrada. E a inclinação dramática da bicicleta
A esconder-se da candura delirante das mãos aflitas dos filhos
Que agarram as clavículas das mães e dos pais, a sussurrar medos
E desses  medos, a brotar, surpreendente e espontânea, alguma coragem
Em forma de castanheiro! A máscara de força da fragilidade dos pais
Que hipotecam os braços no colo dos filhos amedrontados, choramingas
E uma mãe que ainda não era, mergulhada no abandono de uma sombra
Com os finos tornozelos expostos ao frio das folhas caídas e molhadas
As núvens a alargar o bréu e a confundirem os olhos por entre a indefinição dos dias
A acolherem o sentido dramático da trovoada e a principiar o riso
Sarcástico de Thor, lembrando a vulnerabilidade dos seres, dos animais,
De todos os animais, mesmo os que se arrogam à mentira da impermeabilidade
Da existência, nos saudosos dias de sol e abundância. E agora, patéticos,
À deriva, no barco velho de navegar o inverno,
debaixo da chuva torrencial da tempestade

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