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A Fellini

havia um rinoceronte gripado no porão do navio
uma Messalina rabeante a arrastar plumas de pavão

a sombra das correntes de um homem-mais-forte-do-mundo
sobre as lágrimas escondidas da arlequina

a abundância da matrona acamada
reconfortando o escaldão do filho narigudo

o falso ditador discursa a cerimonial flatulência
revelação dos seios na cozinha napolitana

as máscaras cadavéricas do arcebispo e do cardeal
negros vampiros com babadoiros púrpuras 

a sereia nórdica da fonte de Trevi
e o desejo do mancebo elegante na bandeja 

a raposinha moribunda na praia
a motorizada a ranger no incêndio da aldeia

os terraços de Calígula a dançarem
e a polícia a adoçar as criancinhas

a puta cansada a aliviar-se dos sapatos
e a alcoviteira a despejar inseticida 

o teatro de sombras de uma velha civilização 
no fogo de artifício dos faróis dos motards 

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Em memória de um nariz partido (ao Sá)

O chão bateu-me na cara Numa noite morna e esverdeada Lembrava pouco do que se tinha passado Antes de ser socado pelo passeio de cimento Levantei-me com uma máscara de sangue A escorrer como um cachecol  Ainda cortei uma mão numa poça envidraçada E sujei outra, não sei como, manga acima Numa mistela nauseabunda Havia monstros a falar muito alto e ao mesmo tempo Que me agarravam as mangas e puxavam Dezenas de faces obscuras e viciosas Amontoavam cacofonias indecifráveis  As luzes perfuravam-me os olhos E uma porção de barro, muito azeda, Bloqueava a minha garganta inerte Onde se sobrepunha uma cabeça De três toneladas de delirante cinética A tentar escapar do pesadelo No outro dia, não percebia como é que  O Rasputine me tinha deixado em casa Salvo, sujo e com o nariz partido

burocracia

receio o minotauro receio as bestas, por familiaridade mas sei que o perigo está nos labirintos diz o que queres, Maria.