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Uma sombra lancinante cortava a escada como um bolo, servindo a maior fatia porta afora para um pátio escuro. Suspenso na escuridão, o clamor da luz de uma grande janela abria o ruidoso teatro de sombras sobre esse pátio. Um chinfrim próprio de rituais antigos. Debaixo do lustre de muitas dezenas de velas, o aço percutia o marfim: um chimpanzé perverso arremessava um martelo sobre os dentes geométricos de um piano de cauda. Si, , si, sustenido, mi, sol, foi uma das sequências que consigo relembrar, expectante, por debaixo da gritaria sufocante da governanta. O símio continuava pulando e ostentando o tesão do martelo, o Bosendorfer ía gritando de dor e os ais da matrona pediam socorro para tão desesperada situação. Seguiu-se um arrepiante si, si, , , , , si, , sol, sol, , produzido pelas marteladas no piano, que culminou com os gritos da mulher, primeiro em si e depois em sol, desafinando uma memória qualquer. 
Correndo geometricamente, um polícia com genética de poster dos anos cinquenta, entrou triunfante na arena da narrativa. Carregando o bigode seráfico dos heróis no alpendre do queixo quadrado e saliente do costume, esmagou o espaço melodramático da matrona, do chimpanzé e o do piano. A primeira continuava a gritar, desta vez uns risinhos de descontrolada excitação, o segundo ia encolhendo o movimento de arremesso para um salto de se escapulir defensivamente para a rectaguarda do martelo e o terceiro curvava-se desfigurado conferindo dramatismo ao espaço. O polícia rectilíneo, obcecado como um pião, perturbava-se ansiosamente na tentativa de descobrir acessibilidades para chegar à oculta rectaguarda do martelo, questionando a matrona que era certamente conhecedora da arquitectura envolvente. Esta, porém, questionava-se sobre a localização do chimpanzé que se escapara, uma vez que dali não era possível ver a rectaguarda do martelo. Sabia eu essa localização, graças à condição omnisciente de narrador-criador. Olarilolela! Como seria possível o polícia saber tão determinadamente onde estava o chimpanzé? É um mistério arrebatador – místico, talvez! – que nunca consegui abranger e para o qual só me reconforto na memória da expressão facial de absoluto espanto da matrona.
Apercebendo-se gradualmente do fracasso da sua perseguição, o orgulhoso herói decide-se pelo charme retórico. Confortando a matrona, introduzindo o seu pénis mate na vagina oleada dela, dizia-lhe meigamente sobre a compreensão. O discurso habitual para decorar o fracasso de ébria confusão psicológica. E, ainda por cima (literalmente), vinha-se logo de seguida. Dizia-lhe sobre o chimpanzé, discorrendo uma invenção mal estruturada sobre um ódio ancestral dos símios pelos pianos e alegava condescendentemente a animalidade do bicho. Frustrada pela velocidade da ejeculação, a mulher ia ouvindo servilmente a voz grave e adocicada do polícia, enquanto este discretamente lhe empurrava a cabeça para baixo. Depois falou-lhe novamente em compreensão, alegando que devemos imaginar-nos no papel do outro e assim... assim e assim e assim. E a mulher, depois da descarga de adrenalina, da interrupção decepcionante e do relambório contínuo, entrou em hipnose. Saltou agilmente para uma mesa, guinchou simiescamente e agarrou um velho candelabro de estanho com o qual martelou violentamente a tecla oleada e pouco hirta do polícia. Umas dezenas de marteladas depois, o polícia jazia mergulhado no rubor do tapete.
Cumprida uma longa pena de prisão, a matrona e o chimpanzé reencontraram-se, casaram e criaram uma próspera sociedade de advogados no centro da cidade.

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