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OFÉLIA

Ofélia contava aí umas oitenta primaveras. Naquele invólucro flácido já tinham habitado muitas heroínas. A menina maria-rapaz a preto e branco congelada nas velhas fotografias, a cobiçada peituda da retrosaria Belamy da avenida, a vice-presidente da liga das virtudes do rosário, a campeã regional de badmínton sénior e, mais recentemente, a minha peculiar avó, doente crónica de meia-dúzia de coisas e que vivia engolida por um sofá azul pálido do qual pendiam os seus braços em delirante movimento. Vivia orgulhosamente só. Pensionista. Uma conversadora vocacionada para o monólogo simpática e orgulhosamente imposto. Viciada em fervorosos diminutivos e empunhando a espada flamejante do arcanjo Gabriel, contra os demónios da sua incompreensão, com licença de uso e porte de arma. – Essa gentinha sem berço que anda por aí a estragar o que cristo veio arranjar ainda há de ver, no dia do juízo final… Relampejava firme, gesticulando com o balanço e a tensão desconcertante dos maestros das orquestras filarmónicas, com o sobrolho arqueado e o semblante altivo como o das estátuas de Mussolini. A sua maior malícia revelada era a exposição pública de flatulências nauseabundas que teimava em findar com uma gargalhada e com uma estranha remição: – Fui marotinha… Como sempre dizia enquanto enchia os olhos de um suco pulsante e desvairado de deleite. O intestino de Ofélia era anarquista. Nos anos em que convivemos, quase diariamente, o discurso que lhe dediquei deve ter abrangido pouco mais de uma dúzia de vezes: Sim. Está bem. Como queira. É desnecessário dizer mais, a água e o azeite não se misturam.
Um dia qualquer amputei a velha ao sofá. Não me lembro se estava entediado, embriagado ou se lhe devia dinheiro… Decidi levá-la a um bar, como se pudesse esquecer todas as incongruências de ecossistema. No carro, avisei-a: – Ofélia, hoje vais ser a minha gaja… Queres um cigarro? ­– O que se passa contigo rapaz? Estás condenado… Foste cuspido por satanás. Respeitinho… Eu sempre desconfiei…Ai! Desde que andas com aquela vermelha escanzeladita… Tu drogas-te!? Pára o carro. Ainda te podes salvar meu filhinho. Vamos falar com o Monsenhor. Aproveitei-me da sua predisposição para o delírio e deixei-a falar até chegarmos ao Pin-up. O Pin-up era um bar nas docas. Uma espécie de prostíbulo mal fingido frequentado pelos pescadores. Convenci a velha a acompanhar-me. Disse-lhe que o senhor doutor Vilela da Costa, médico aposentado e benfeitor honorário da paróquia, costumava tomar café naquele lugar e que me dissera há poucos dias que folgaria rever a sua amiga Ofélia. No seu semblante aparecia um ar vaidoso que resgatava a velha das suas resistências moralistas. Sentamo-nos numa mesa de canto, debaixo da sombra, a tempo de ver o show peculiar de Nancy, a badalhoca. Pedi dois gins. A velha começava a revelar um desconcerto nervoso e perguntava-me o que era aquilo. – Vais beber a bebida favorita do doutor Vilela da Costa, a mesma que Jesus criou por milagre e bebeu nas bodas de Caná. E ali – olha! – Vais ver uma representação sobre o castigo de deus a Maria Madalena. Entraram os anões do costume. Um vestido de Cármen Miranda e o outro de Napoleão Bonaparte. A música crescia e a luz convergia para o centro de um palco feito de caixas de armazém. De uma delas saía Nancy, a badalhoca, pudicamente coberta pela bijutaria e pela maquilhagem. Ofélia gritava: - Meretriz! Querias desviar o filho de deus… Nada que não encaixasse harmonicamente na idiossincrasia dos piropos dos pescadores, enquanto Nancy rebolava e revelava cada parcela do seu corpo roliço. Ofélia já havia bebido meio copo de gim e os insultos cessavam e davam lugar a um ligeiro balançar de perna. Pouco tempo depois, fui àquele quarto de banho asqueroso, por uns minutos. Quando regressei, nem sombras da velha e o show tinha terminado. O silêncio transbordava daquele salão lúgubre e vazio. Na mesa do canto, debaixo da sombra, dois copos vazios. Intrigado, aproximei-me. Um bilhete em cima da mesa: - Querido neto, Descobri que a Maria Madalena tem o direito de mulher de amar, constituir família e sentir o prazer que Deus inventou no corpo da Humanidade, feito à sua imagem. Por isso, eu e o Sr. D. Vilela da Costa decidimos acompanhá-la na sua notável direcção e, com a ajuda do pequeno índio e do ilustre general, partimos em busca de Jesus, para a Galileia (que parece que agora se chama Las Vegas). Embarcamos no transatlântico “Opus Pistorum”, há minutos. Agradece ao senhor do bar por te fazer chegar este bilhete. Um beijo, tua avó, Ofélia.

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