Um espirro em sol menor antecipa o verão. A sala arfa bolores antigos e os bolores destoam da alegria prometida nas sardas dos risos das meninas e dos meninos. A espreitar por debaixo da ciência e da moral, uma simpatia traquina e generosa que cheira a magnólias. Os minutos passam desordeiramente e transformam-se em dias. Os dias costuram os pedaços desgarrados e humanizam-se com senso, com caras, com nomes. E ao sol, cresce a história de crescer. Cada um cintila de originalidade essencial. Dos diferentes sons da melodia de ser. Sopramos aos dias os nossos pedaços de história, contra o vento. Pedaços de magia, de dor, de saber. Malandros, audazes, alegres, livres, voadores e fugidios do colo envenenado dos sofredores de desinfantilidade amarga e de síndrome de criatividadofobia estatística sisuda – eles todos – raparigas e rapazes, aprendem a crescer. Por vezes dói. O jogo de crescer pode doer muito se é viciado pelos que pararam de crescer. Quando sufocam, no jogo humilhante da mentira, do pudor, da culpa, da inveja e da tristeza, esculpem invernos. O verdadeiro jogo de crescer também dói. Dói coisas que estão a entrelaçar-se e que entrelaçadas fortalecem e apaziguam a dor e assim sucessivamente. Nas cicatrizes enraízam-se flores e músicas e filmes e danças e viagens e aventuras e descobertas. A crescer até se podia crescer gente muito duradoura. De mil e muitos anos. Era preciso conservar a luz de crescer que sustentasse a coluna. Há um lugar onde há cheiro intenso do crescer. Um cheiro de liberdade interior a cozer. Por dentro, aquece-se experiências fundamentais. O interior alarga-se esticando a pele com o poema de saber as coisas e de as combinar como uma renda, que depois se debrua com o interior ancestral. Uma renda em turbilhão morando nos pisos de cima. Acima do entendimento. A lua, o riso, a álgebra, o salto, o poema, o nutriente, a ética, a circunferência, o tendão, o jogo, o projecto, a ideia, as gramáticas, o azul, as montanhas, o estame, o lá sustenido de sétima, a idade média, o gerúndio, o brincar, a pluviosidade, a fenomenologia, a convivência, a crítica, o islamismo, o desenho, o peso, o pâncreas, crescem viçosos, despartidarizados e colhem-se frescos e acompanham o que cabe nos olhos do nome de cada um, onde só aí são sentido. Saboreamos os seus açúcares e sentimos força para sonhar e os nossos pés sustentam o nosso passeio entre as dúvidas. Temos o conforto de crescer com dúvidas. A companhia das dúvidas escondidas no amor dos olhos. A crescer e a fazer crescer. Verão, outono, inverno e primavera.
[I] A voz trémula [a] risca no ar uma fina linha vermelha [II] Em forma de pergunta, [b] o olhar intermitente de um sorriso [III] São flores silvestres [c] que tatuas na minha vontade [IV] De segurar a tua mão, [d] de passar o tempo a tentar responder [V] Em certas manhãs, [e] a tempo de continuar a ser [VI] Encontro absoluto de bichos-da-seda [f] para lá do tempo e da morte [VII] Sem mentiras nem remorsos [g] em silêncio, a sentir a voz da pele [I], [II], [III], [IV], [V], [VI], [VII] ou [a], [b], [c], [d], [e], [f], [g] ou [I], [a], [II], [b], [III], [c], [IV], [d], [V], [e], [VI], [f], [VII], [g]
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