Esta história é muito muito velha...
O meu avô é muito muito velho... É mais velho que o rio que passa lá na aldeia. Nem o meu avô – que é muito muito velho – se lembrava desta história.
Há muito tempo, havia uma mãe. Uma grande mãe. Era a mãe de todas as pessoas que existiam. Era a única mãe que existia.
Chamava-se Línguamãe! O seu nome servia como uma luva.
A Línguamãe sabia muitas coisas. Sabia o nome de quase todas as coisas e por isso sabia dizer quase tudo. Sabia o nome de todas as flores que cresciam até ao pôr-do-sol, dava bons conselhos e sabia contar lindas histórias cheias de palavras que dançavam na luz da vela. As palavras saiam da sua boca com ternura e encantavam todos os que a ouviam. Todas as palavras que existiam tinham sido inventadas por ela. Assim, ensinou a todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – que aprendia tudo com o Sol. Com a sua voz serena, repetia sem se cansar:
- Pela manhã, bem cedo, o Sol afasta o manto negro da noite e mostra-me todas as coisas. Tantas coisas... Depois de descobrir, nascem-me na língua os nomes das coisas.
Como ficaram contentes quando ela disse pela primeira vez:
- BOLO!
Todas as palavras da Línguamãe eram simples e belas.
Os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – ouviam e compreendiam tudo o que a mãe lhes dizia. Compreendiam as coisas fáceis e as coisas difíceis.
Compreendiam tudo, mesmo sem saberem dizer quase nada. Dos mais pequenitos a gatinhar até aos que já tinham cabelos brancos, nenhum sabia mais do que metade das palavras que ouvia da mãe. Quando ouviam, compreendiam todas as palavras. No dia seguinte, já só se lembravam de metade delas. Por isso, falavam pouco.
Chegaram dias de Sol escondido.
As nuvens escuras calavam a Línguamãe e choviam nos filhos. A sombra escondia os olhos e secava as línguas. A língua da Línguamãe era um tesouro fechado no cofre da boca.
E o céu continuou assim, escuuuuuro! Escondia a vida da terra no frio, no medo e no silêncio.
Nenhuma nova palavra se ouvia. Nenhuma velha palavra se ouvia. As bocas cerraram-se num silêncio gelado.
Desesperados, os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – partiram em busca do Sol.
Sem o Sol não nasceriam mais palavras na língua da mãe. Sem o Sol nunca mais poderiam ouvir cantar, nunca mais poderiam ouvir a palavra “bolo”.
Os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – procuraram as pedras mais sólidas e, pedra sobre pedra, construíam uma torre. Queriam uma torre que superasse as nuvens escuras e levasse uma escada até ao Sol.
Os filhos mais fortes carregavam as pedras maiores. Os filhos mais leves carregavam as pedras pequenas. Os filhos mais cuidadosos construíam um corrimão na escada. Os filhos mais críticos faziam desenhos e desenhos de como seria a torre. Os filhos mais preguiçosos escondiam-se entre as pedras e dormiam.
Todos repetiam as suas actividades, dia após dia, e a torre ia crescendo.
A Línguamãe continuava sentada, debaixo da escuridão, em silêncio. Adormecia.
Os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – continuavam agitados, amontoando pedras.
Quanto mais alta ficava a torre e mais escadas subiam, os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – ficavam mais agitados e deixaram de falar pouco. Falavam e falavam e falavam...
Os filhos mais fortes tornavam-se mais fortes e só sabiam falar sobre o peso das pedras, sobre os músculos e sobre as enormes refeições que comiam. Os filhos mais leves tornavam-se mais leves e só discutiam com entusiasmo o tamanho minúsculo e as formas diferentes das pequenas pedras e dos grãos de areia que carregavam. Os filhos mais cuidadosos tornavam-se mais cuidadosos e não sabiam falar de mais nada do que do perigo que era avançarem na construção sem pensarem antes na segurança da escada. Os filhos mais críticos tornavam-se mais críticos e as suas ideias para a torre já pouco tinham a ver com a torre e uns já imaginavam elevadores enquanto outros só pensavam em escadas-rolantes. Os filhos mais preguiçosos tornavam-se mais preguiçosos e não falavam muito mais do que antes, só quando tinham que inventar desculpas para se escaparem ao trabalho.
Estavam mais diferentes uns dos outros, mais afastados e nem pareciam irmãos. Falavam, falavam e discutiam, discutiam... Já pouco ou nada se entendiam. E cada dia piorava...
Na grande confusão, a torre ficava cada vez mais alta e cada vez mais retorcida com escadas todas diferentes e, por vezes, com buracos perigosos. Já não era uma torre recta com uma escada sólida.
Já não se conseguia ver a Línguamãe.
O cimo da torre já tocava o manto escuro de nuvens e os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – continuavam a sua sinfonia barulhenta. Todos falavam e ninguém se entendia. As palavras que cada um dizia eram diferentes das que os outros conheciam. Nas línguas de cada um nasciam palavras diferentes e estranhas, que não faziam sentido para mais ninguém.
Um dia, um filho – dos filhos mais fortes – colocava uma grande pedra no cimo da torre. Era mais uma pedra para fazer a torre mais alta. No momento em que chegava ao ponto mais alto, a pedra brilhou como a água e um raio de sol atravessou a torre. Habituados à escuridão, os olhos ardiam e precisaram de fechar-se. Todos correram escada abaixo para protegerem os olhos.
Com a correria desorganizada de todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam –, a torre cedeu e caiu numa chuva pesada de pedras e gente.
A Línguamãe que dormia, acordou assustada com o barulho.
Todos aprenderam. Magoaram-se todos um bocadinho. Além de umas pisadelas e uns arranhões, todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – morderam a língua no momento em que chocaram com o chão.
A mãe tratou as feridas dos filhos e quando todos ficaram sãos, o Sol rompeu a escuridão e voltou a fazer os dias.
Desde da queda da torre, todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – deixaram de poder falar. Entre eles só havia ouvidos para a Línguamãe. Desde que o Sol voltou, a Línguamãe voltou a falar. Todos os dias lhe nasciam novas palavras na língua. Cada vez mais bonitas...
Muitos anos passaram.
Um lindo dia, o Sol apareceu como uma grande rosa de luz e convidou a Línguamãe para com ele se casar. A Línguamãe, que vivera apaixonada pelo Sol todos os dias, pulou de alegria.
Antes de partir com o seu príncipe Sol, despediu-se de todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – e pediu-lhes um único favor:
- Com todas estas pedras que caíram da vossa torre, peço-vos que construam escolas em todo o mundo.
Depois dividiu a sua língua sábia por todos. Mas antes disso, lembrou:
- Com as belas palavras que nascerão nas vossas línguas, ensinem aos vossos filhos tudo o que o Sol vos mostrar.
Depois de saber que todos os filhos – que eram todas as pessoas que existiam – prometeram cumprir os seus desejos, Línguamãe voltou a pular de alegria. Pulou e pulou e pulou, até abraçar o Sol. E assim partiu para o céu.
Hoje, ainda lá está, de mãos dadas com o Sol a pedir-lhe que nos mostre tudo o que podemos aprender. Que mostre a todos os meninos pobres ou ricos, altos ou baixos, sossegados ou traquinas, amarelos ou verdes, a luz bela de cada coisa que ganha nome na língua. E nas escolas, onde hoje aprendemos as lindas palavras que foram nascendo nos pedaços de língua, ficaram bem aproveitadas as pedras de uma torre de loucura.
Novembro de 2006,
António Boaventura Pinto
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